a pesquisa
O romance policial sempre foi caro à literatura hispano-americana, exercendo sobre escritores um fascínio que lembra o que os cineastas franceses da nouvelle vague sentiam pelo cinema B norte-americano da época; vários autores se debruçaram sobre ele, com intenções que variavam da homenagem pura e simples ao estudo dos elementos, arquétipos e códigos típicos do gênero, passando pela desconstrução e reconstrução dele dentro do mundo ficcional de imaginário pessoal de cada um.
Uma interessante brincadeira desse tipo é “A pesquisa” (La pesquisa, 1994), de Juan José Saer, livro tão bom que poderia se bastar apenas como exercício de gênero, mas vai além disso: partindo de um modelo geralmente fechado para a interpretação como é a ficção policial — há um crime, uma investigação e uma solução que faz, ou quer fazer, a obra se fechar em si mesma; dúvidas, fios soltos e afins são considerados defeitos —, Saer reafirma a pessoalidade/subjetividade inerente a qualquer leitura, assim como a impossibilidade de um elemento narrativo ter valor único e imutável: o que parece ou intenta apontar apenas um caminho pode se desdobrar em milhares deles. Aliás, manobra semelhante (em objetivo, não em execução) à que Borges fez através de Herbert Quain, cujo livro policial “The god of the labyrinth” tinha duas soluções: uma, incorreta, dada pelo detetive da história, e outra, verdadeira, descoberta pelo leitor ao topar com a curiosa e intrigante frase que encerra a obra; já Saer é radical: certo e errado são conceitos que não fazem sentido algum dentro de “A pesquisa”.
Esse reprocessamento do romance policial que tanto subverte sua estrutura quanto a enriquece no contexto da obra, porém, é apenas um dos aspectos do livro, que se lança por vários níveis e funciona em todos. Assim, quando há momentos num boteco, noite, calor absurdo, com uma tempestade se aproximando, você está ali com os personagens, sua, sente o ar na pele, e aquele cheiro que prenuncia chuva, nas frases longas, por vezes longuíssimas, que teimam em terminar e que são tão características de Saer. Ou ainda o aparecimento do livro (infelizmente fictício) “Nas tendas gregas”, reconto da guerra de Troia, escrito por um autor desconhecido, que fala sobre a verdade da vivência e a verdade histórica (que se confunde, segundo o autor, com a verdade da ficção), que os personagens discutem entre si e que dialoga com a trama policial central, sobre um competente comissário à beira do desespero por não conseguir capturar um assassino serial que já fez quase trinta vítimas, trama à qual temos acesso apenas indiretamente. Ou, acima de tudo o mais, o instante inigualável — melhor dizendo, igualável apenas pelo próprio Saer — de quebra narrativa, que é como um machado descendo sobre um tampo de vidro, genial na administração das expectativas e da atenção do leitor, e uma grande sacanagem, ao mesmo tempo.
Demonstração de maestria: a tempestade se aproxima cada vez mais, mas as primeiras gotas da chuva são relegadas para um tempo além da última página; porém o livro permanece bem vivo na memória.