corrida sem fim

2009 Julho 6

Também vi — ontem, exatamente — o road movie “Corrida sem fim” (Two-lane blacktop, 1971), do Monte Hellman. O filme tem uma força meio inexplicável, que resiste a tentativas de resumi-la em poucas, ou até muitas palavras. Mas o que posso dizer é que o que mais me pegou foi o modo como o Hellman fez o que provavelmente é o mais emblemático filme do gênero fugindo dos códigos mais típicos e mesmo de qualquer estrutura convencional — não há desenvolvimento de personagens (na verdade há, mas não no sentido que normalmente se dá à expressão), a trama mínima é abandonada a partir de certo ponto, as elipses muitas vezes quebram o mais básico quadro de causa/efeito, deixando ações inconclusas e simplesmente pulando para a frente, e por aí vai. Com esse processo de desmontar e arrancar tudo que não seja absolutamente essencial o que acaba saindo é menos um filme e mais a própria materialização em celulóide de tudo o que estradas que atravessam de uma costa a outra um país de dimensões continentais como os EUA podem evocar; o que permanece são as lanchonetes e paradas de motoristas, a busca cujo objetivo só vai ser descoberto quando e se for alcançado, as estradas intermináveis e desertas, as planícies vastas, o horizonte que parece infinitamente distante.

samuel fuller

2009 Julho 6
por Robson

Andei explorando a filmografia do Samuel Fuller de uns tempos pra cá; logo o mais famoso eu ainda não vi, “Agonia e glória”. Mas já assisti a boa parte das coisas encontráveis, embora isso seja apenas cerca de metade do que ele fez (nove filmes, dos vinte e dois que ele realizou, e isso sem contar dois feitos para TV). Mas já é suficiente para admirar demais o sujeito, tanto pelo talento no manejo da câmera (ver “Cão branco” e “Casa de bambu” para bela demonstração dessa característica; na verdade em todos o Fuller leva a coisa com desenvoltura notável, mas nesses dois é mais escancarado), quanto, e talvez seja o que mais impressiona no diretor, a coragem para encarar certos temas de frente e tratá-los em tela sem a menor firula. Isso é sua marca e acabou se tornando também sua ruína: depois de “Cão branco”, que nem chegou a ser lançado nos cinemas devido ao medo da Paramount de causar muita controvérsia (e sobreviveu sendo exibido vez ou outra nas TVs mundo afora até o ano passado, quando foi lançado em DVD pela Criterion), não realizou mais nenhuma obra nos Estados Unidos; entre essa data e sua morte, em 1997, só conseguiu dirigir mais três filmes, um deles para TV, e um episódio de seriado; as quatro produções foram na França.

1. Cão branco (White dog, 1982)
2. O beijo amargo (The naked kiss, 1964)
3. Matei Jesse James (I shot Jesse James, 1949)
4. Casa de bambu (House of bamboo, 1955)
5. Quarenta rifles (Forty guns, 1957)
6. Capacete de aço (The steel helmet, 1951)
7. Paixões que alucinam (Shock corridor, 1963)
8. Baionetas caladas (Fixed bayonets!, 1951)
9. Anjo do mal (Pickup on South Street, 1953)

Pequeno top com o que vi. A ordem não é lá tão importante. Dá pra dividir a coisa em dois blocos: os três primeiros, que são meus preferidos mesmo com alguma distância; e os demais. Dentro dos blocos a ordem é mais ou menos aleatória. A exceção é “Anjo do mal”, o único que considero só mediano, mesmo que seja um exercício até interessante, então fica em último de qualquer forma.

Post-que-não-diz-nada-mesmo-fingindo-dizer, mas enfim.

a pesquisa

2009 Março 15

O romance policial sempre foi caro à literatura hispano-americana, exercendo sobre escritores um fascínio que lembra o que os cineastas franceses da nouvelle vague sentiam pelo cinema B norte-americano da época; vários autores se debruçaram sobre ele, com intenções que variavam da homenagem pura e simples ao estudo dos elementos, arquétipos e códigos típicos do gênero, passando pela desconstrução e reconstrução dele dentro do mundo ficcional de imaginário pessoal de cada um.

Uma interessante brincadeira desse tipo é “A pesquisa” (La pesquisa, 1994), de Juan José Saer, livro tão bom que poderia se bastar apenas como exercício de gênero, mas vai além disso: partindo de um modelo geralmente fechado para a interpretação como é a ficção policial — há um crime, uma investigação e uma solução que faz, ou quer fazer, a obra se fechar em si mesma; dúvidas, fios soltos e afins são considerados defeitos —, Saer reafirma a pessoalidade/subjetividade inerente a qualquer leitura, assim como a impossibilidade de um elemento narrativo ter valor único e imutável: o que parece ou intenta apontar apenas um caminho pode se desdobrar em milhares deles. Aliás, manobra semelhante (em objetivo, não em execução) à que Borges fez através de Herbert Quain, cujo livro policial “The god of the labyrinth” tinha duas soluções: uma, incorreta, dada pelo detetive da história, e outra, verdadeira, descoberta pelo leitor ao topar com a curiosa e intrigante frase que encerra a obra; já Saer é radical: certo e errado são conceitos que não fazem sentido algum dentro de “A pesquisa”.

Esse reprocessamento do romance policial que tanto subverte sua estrutura quanto a enriquece no contexto da obra, porém, é apenas um dos aspectos do livro, que se lança por vários níveis e funciona em todos. Assim, quando há momentos num boteco, noite, calor absurdo, com uma tempestade se aproximando, você está ali com os personagens, sua, sente o ar na pele, e aquele cheiro que prenuncia chuva, nas frases longas, por vezes longuíssimas, que teimam em terminar e que são tão características de Saer. Ou ainda o aparecimento do livro (infelizmente fictício) “Nas tendas gregas”, reconto da guerra de Troia, escrito por um autor desconhecido, que fala sobre a verdade da vivência e a verdade histórica (que se confunde, segundo o autor, com a verdade da ficção), que os personagens discutem entre si e que dialoga com a trama policial central, sobre um competente comissário à beira do desespero por não conseguir capturar um assassino serial que já fez quase trinta vítimas, trama à qual temos acesso apenas indiretamente. Ou, acima de tudo o mais, o instante inigualável — melhor dizendo, igualável apenas pelo próprio Saer — de quebra narrativa, que é como um machado descendo sobre um tampo de vidro, genial na administração das expectativas e da atenção do leitor, e uma grande sacanagem, ao mesmo tempo.

Demonstração de maestria: a tempestade se aproxima cada vez mais, mas as primeiras gotas da chuva são relegadas para um tempo além da última página; porém o livro permanece bem vivo na memória.

começando

2009 Março 15
por Robson

A princípio, a finalidade desse espaço é abrigar textos sobre literatura, indo de Thomas Pynchon a Stephen King, bastando, para que um livro apareça aqui, que eu o haja, claro, lido, e tenha algo interessante ou não (geralmente não) para falar a respeito dele, ou apenas sinta a necessidade de escrever algumas linhas mais ou menos aleatórias: às vezes a gente precisa disso até mesmo para descobrir o que realmente pensa sobre um livro (ou filme, ou música, ou—). Nada de resenhas ou grandes análises ou o escambau; talvez o nome mais apropriado sejam histórias de leituras, se não parecer tosco ou piegas demais. E, como muitas vezes não dá para se falar o que quer sem soltar um ou outro detalhe do enredo, é provável que alguns textos tenham uns poucos spoilers moderados; mas vou tentar mantê-los no patamar mínimo necessário, e também nunca chegar a soltar um realmente cabeludo (ao menos sem avisar). Quando/se a base de textos estiver grande o suficiente, quem sabe — pouco provável — até surja um índice.

Eventualmente, posts aqui e ali sobre o que me der na telha, relacionado ou não ao tema principal do blog. E sendo esta a terceira vez que me disponho a levá-lo para frente (a primeira foi privilegiando o cinema; a segunda já tendia para o enfoque literário, e nenhuma durou mais que dois ou três posts), a possibilidade de um dia eu simplesmente surtar e apagar tudo, ou no mínimo abandonar isso aqui, também existe.

Mas bom, vamos lá.